Grandes mulheres: Frida Kahlo
Publicado em: 17 de março de 2010 | Categoria: Mulheres, Promoção | Por: Deise Lima |
“Seu ser estava cheio de amor a vida, amor a matéria, amor a pátria, amor pelas crianças, amor pelas pessoas, amor a Diego, amor a sua família, amor as pedras, amor as plantas, amor aos animais, amor a cor, amor a paisagem e este amor se converteu em pintura.” (Juan O’ Gorman)
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Magdalena Carmen Frieda Kahlo Calderón nasceu em 06 de julho de 1907, em uma bela casa azul no bairro de Coyoacán, na Cidade do México. Já Frida Kahlo, impregnada de um espírito nacionalista visível e marcante em sua obra, gostava de dizer que havia nascido junto com a Revolução Mexicana, em 1910.
Frida foi uma mulher apaixonada. Autêntica. Sofrida. Destemida. Transparente. Inovadora. Revolucionária. Contraditória. Frágil. Forte. Bela. Feia. Me faltam adjetivos. Resumo: uma grande mulher.
Aos 6, teve poliomielite e sobreviveu, mas com a perna direita mais fina e curta que sua esquerda - defeito que passou a vida a esconder. Aos 18, foi vítima do acidente que marcou sua vida: seu ônibus chocou-se contra um trem, partiu sua coluna, sua pélvis e diversos ossos. Foram anos de repouso, recuperação, dores, médicos, coletes ortopédicos e cama. Do pai, fotógrafo e pintor, vieram as tintas, o estímulo e, quiçá, o dom da pintura. Da mãe, veio a idéia de instalar um espelho sobre a cama para que servisse de modelo pra si mesma. Com um cavalete adaptado a sua cama, Frida - que antes sonhava em ser médica - começou a pintar e nunca mais parou.

"Autorretrato con traje de terciopelo", 1926. Primeiro quadro profissional de Frida, ainda acamada. Ela o dedicou a seu ex-noivo - Alejandro Goméz - quem lhe havia deixado desde o acidente, na esperança de reconquistar seu amor. Os fortes aspectos nacionalistas e a influência da cultura mexicana, índigena - que marcaram sua obra - ainda não faziam parte de sua personalidade artística.
Aos 21, conheceu Diego Rivera - pintor renomado, muralista notório, comunista, gordo e 21 anos mais velho - homem que nunca mais sairía de sua vida. Casam-se em 1929. Em grande parte sob influência de Diego, Frida formou sua personalidade política e artística, nacionalista, valorizando as raízes culturais mexicanas e suas origens índias.

Diego observa Frida, que pinta um de seus autorretratos.

"El tiempo vuela", 1929. Já se nota a influência de Diego nas cores vivas, e a evolução artística no fundo mais elaborado.

"Frida Kahlo y Diego Rivera", 1931.

"Autorretrato en la frontera entre Mexico y Estados Unidos", 1932. Entre 1930 e 1933, Diego e Frida passam temporada nos EUA - para desânimo de Frida - onde Diego trabalha. Nesta obra, observa-se o contraste da beleza e vida mexicanas com a fria indústria e progresso americanos.
Ainda que bastante politizada, é impossível olhar para sua obra sem enxergar a própria Frida. Sua arte é pessoal, um reflexo de suas dores. Das dores físicas, que a acompanharam por toda a vida devido a sequelas do fatídico acidente. Da impossibilidade de ser mãe, sonho que descobriu impossível após uma série de abortos naturais,também atribuídos a sequelas do acidente. Dores de amor, pela constante infidelidade de Diego - que a traíu inclusive com sua irmã Cristina. É preciso coragem para se despir dessa forma em suas pinturas.
“Nunca pintei sonhos. Pintava minha própria realidade.” (Frida Kahlo)
"Mi nacimiento", 1932.

"Allá cuelga mi vestido", 1933. Frida coloca seu típico vestido tehuano - que marcou sua imagem - no centro de sua visão crítica de Nova York, ridicularizando valores americanos colocando um troféu de golf e um vaso sanitário em pedestais.

"Recuerdo o El Corazón", 1937. O coração partido de Frida aparece a seus pés. Este quadro é considerado uma expressão do vazio e tristeza sentidos por Frida, quando descobriu o caso de Diego com sua irmã mais nova, Cristina.
Sua obra - pequena, com aproximadamente 200 telas - é profundamente realista, ainda que, em determinado período, tenha sido erroneamente classificada por André Breton como surrealista (gênero de que Frida fez pouco). Os autorretratos - vários pertubadores - são uma constante, e geraram muitos questionamentos aos que Frida costumava responder que não eram exatamente uma escolha:
“Eu pinto-me porque estou muitas vezes sozinha e porque sou o assunto que conheço melhor.”
Picasso disse de Frida, a quem conheceu durante sua temporada em Paris, em carta a Diego:
“Nem você, nem Derain, nem eu, somos capazes de pintar uma cara como as de Frida Kahlo”

"Lo que vi en el agua", 1938.

"Las dos fridas", 1939. Pintado em Paris, o coração sangrando, ela expõe seu sentimento de dupla personalidade: a mexicana, a direita, adorada e querida (inclusive por Diego) e uma versão 'européia', sofrida.
Em sua relação intempestuosa e sempre conturbada com Diego, entremeada por traições de ambas as partes, houveram períodos de separação que acabaram por trazer reconhecimento e independência econômica a Frida, que recusava-se a aceitar dinheiro de Diego e afirmava que poderia viver de sua arte. Conseguiu.
Sempre contraditória, de Diego, ela dizia:
“Ser a mulher de Diego é a coisa mais maravilhosa do mundo. Eu o deixo brincar de matrimonio com outras mulheres. Diego não é marido de ninguém e jamais o será, mas é um grande companheiro”
“Sofri dois grandes acidentes na minha vida: um foi no ônibus, e o outro, Diego.”

"Autorretrato con monos", 1943. Frida tinha grande amor aos bichos, e pintou uma série de autorretratos com eles. Seus animais eram tratados como filhos, que ela não pode ter.

"Pensando en la muerte", 1943

"La columna rota", 1944. Seus alunos contam que, inicialmente, o quadro não tinha o pano que envolve a parte inferior do corpo. O incluiu posteriormente, para que o pubis desnudo não desviasse a atenção da expressão de dor em sua face, dor física e moral.
Sua obra começa a ser reconhecida no México e internacionalmente a partir da década de 40. Expôs em Nova York, em Paris, lecionou em escolas de arte mexicanas. Mas foi no final dessa década que sua saúde entrou em estado crescente de decadência, prendendo-a mais uma vez a cama - o que a levou a um estado depressivo. O tema da morte, que sempre permeou sua obra, tornou-se mais constante e - na ironia de Frida - os autorretratos foram substituídos por pinturas de natureza ‘morta’.

"Diego y yo", 1949. Magoada por mais uma traição de Diego, usa (mais uma vez) seus cabelos para expressar sua dor. Os fios ao redor do pescoço sugerem estrangulá-la, as lágrimas escorrem, mas ainda assim a presença de Diego continua dominando sua existência.

"El abrazo de amor del universo, la tierra (Mexico), yo, Diego y el señor Xólotl", 1949. Xólotl é um deus asteca que, de acordo com a mitologia, guiava as almas dos mortos a Mictlan - que seria o mundo dos mortos.

"El sueño", 1948. O esqueleto acima da cama forma parte de variada coleção de esculturas do casal. Esta cama, com a caveira, pode ser vista no Museu Frida Kahlo, na Casa Azul em Coyoacán. Foi em uma cama como essa, com o espelho afixado sobre si, que Frida começou a pintar e que passou longos períodos de sua vida, devido a sua saúde sempre frágil.
“…Diego é quem me detém viva, por minha vaidade de crer que posso fazer-lhe falta. Ele me disse isso e eu acredito. Mas nunca sofri tanto em minha vida. Esperarei mais um tempo.” (Frida Kahlo em seu diário, 1953 - após ter uma das pernas amputada)
"Viva la vida", 1954. Dispunha seus 'modelos' de natureza morta de forma a lembrar sutilmente partes do corpo humano: olhos, seios, sexos, crânios. Em alguns de seus quadros, chegou a escrever - como para que convencer-se a si mesma: "Natureza bem morta". (dito pelo amigo Raúl Flores Guerrero)
A vida de Frida Kahlo foi retratada no filme “Frida”, de 2002, estrelado por Salma Hayek no papel da protagonista.
Chris Martin, vocalista do Coldplay, conta que foi uma homenagem a Frida Kahlo o nome dado a última obra da banda, lançada em 2008, ”Viva la vida” (ou “Death and all its friends”, nome que também combina e muito com Frida):
“Ela passou por muita coisa, claro, e aí começou uma grande pintura em sua casa que dizia ‘Viva la Vida’. Eu simplesmente amei a ousadia disso” (Chris Martin)
(fonte: “Genios del Arte - Frida Kahlo”, da editora Susaeta, edição de 2004)
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Por: Deise Lima |








